quarta-feira, 25 de março de 2009

Faces do Subúrbio e o rap em Pernambuco

Nestes primeiros 25 anos de hip hop em Pernambuco, a banda Faces do Subúrbio, do Alto José do Pinho, se tornou indiscutivelmente o maior nome do rap no estado.
Eles chegaram a lançar dois discos por gravadoras multinacionais e foram indicados ao Grammy de melhor álbum latino do gênero. Com Zé Brown à frente dos vocais, o grupo continua na ativa, apesar da saída do cantor Tiger (agora em promissora carreira solo), presente desde a formação inicial. Para 2009, depois de um período de redefinição com shows apenas esporádicos (o último ocorreu no carnaval), preparam um grande retorno com a gravação do quarto disco.
Antes da Faces do Subúrbio, em 1990, Brown e Tiger haviam formado a dupla The Boys of the Rap, que durou dois anos. Eles já dançavam break, mas decidiram começar a rimar quando Brown viu na TV uma apresentação do MC Thaíde, de São Paulo. "O que ele estava falando tinha tudo a ver com a gente", lembra o cantor. No início, os dois cantavam sozinhos, acompanhados de beat box (batidas feitas com a boca) oude qualquer tipo de base instrumental oferecida por amigos que depois formariam bandas de rock como a Devotos e a Matalanamão.

Com a Faces já formada, incorporaram o DJ KSB como integrante da primeira formação, que criou hinos do rap pernambucano, como Deus abençoe a todos e Críticas e críticas. Nos anos seguintes, passaram a tocar com uma banda maior, que participou da gravação de fitas demo (incluindo a clássica Não somos marginais) e dos discos Faces do Subúrbio (1998) e Como é triste de olhar (2000), lançados pelo selo MZA Music, viculado às gravadoras multinacionais Polygram e Universal. Os outros músicos participantes do grupo eram o guitarrista Oni, o baixista Massacre e o baterista Garnizé, que depois se tornaria um dos personagens centrais do longa-metragem O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas.

Hoje, Brown se prepara para lançar um disco chamado Repente rap repente, que é resultado de uma pesquisa de cinco anos em regiões rurais de Pernambuco, com diversas participações especiais (de Zeca Baleiro ao repentista Castanha) e fusões com ritmos folclóricos como o aboio, o maracatu rural e a embolada (já presente na obra do Faces). Tiger, por sua vez, gravou um disco solo, mais voltado para o hip hop em si, bastante festivo e dançante, sem misturas regionais.

Antes da Faces, os únicos grupos de rap do Recife que Brown conhecia eram o Sistema X, do vocalista Núcleo, e The Draks, ainda mais antigo, talvez o primeiro da cidade ("eu os vi pela primeira vez na Praça do Trabalho, em Casa Amarela"). "Comecei a cantar para acompanhar os b-boys. No início, antes de escrever nossas próprias letras, reproduzíamos as músicas do disco paulista Cultura de rua, a primeira grande coletânea de rap brasileiro", lembra César KFC, integrante da Draks, do Morro da Conceição. Hoje, ele é membro do grupo Filosofia Urbana.

Graças às letras do rap, o cotidiano e os problemas vividos pelas comunidades de baixa renda de Pernambuco foram levados pela primeira vez para a música popular brasileira. As canções desempenham uma espécie de inclusão social musical, pois diversos bairros mencionados nos versos nunca haviam sido mencionados em um contexto cultural.

Nos últimos anos, o rap começou a se espalhar pelo interior de Pernambuco, onde podem ser encontrados grupos como Advogados MC's (Abreu e Lima), Facção de Rua Atentado Terrorista (Belo Jardim) e Consciência Nordestina (Caruaru), vencedor da categoria Norte-Nordeste no prêmio nacional Hutus.

No Recife, surgiram selos como o In-Bolada Record e o Do Litoral Rec. A internet, em sites como o My Space e o Orkut, também se transformou em uma ferramenta de divulgação. Alguns grupos funcionam como coletivos e desenvolvem atividades além da música. No Êxito d'Rua, por exemplo, os cantores também atuam como grafiteiros. As mulheres também garantiram seu espaço no hip hop em grupos como o Donas e o Confluência.

O rap ainda passou a ser apropriado por jovens da classe média, que formaram grupos como o Pescosso Colorido e o extinto Dona Margarida Pereira & os Fulanos, bastante inspiradasnos novaiorquinos Beastie Boys. Há ainda uma banda cover, chamada The Wink, cujo vocalista é norte-americano. Direta ou indiretamente, o ritmo também se mostra presente no trabalho de artistas de outros gêneros, como DJ Dolores, Chambaril, Vargas e Catarina Dee-Jah, além da Nação Zumbi, cujos integrantes Chico Science e Jorge du Peixe estavam envolvidos com algumas das primeiras festas do hip hop pernambucano.

Diário de Pernambuco

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